<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915</id><updated>2011-04-21T19:06:19.452-03:00</updated><title type='text'>NO BALCÃO - ORLANDO DE SOUZA</title><subtitle type='html'>Crônica Semanal</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>15</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-115263082624685238</id><published>2006-07-11T12:09:00.000-03:00</published><updated>2006-07-11T12:13:46.266-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4951/1586/1600/Orlando%20Blog.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4951/1586/320/Orlando%20Blog.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-115263082624685238?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/115263082624685238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/115263082624685238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2006/07/blog-post.html' title=''/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-115187771242232987</id><published>2006-07-02T18:59:00.000-03:00</published><updated>2006-07-02T19:01:52.436-03:00</updated><title type='text'>Copa do Mundo: fonte de decepções?</title><content type='html'>Impressionante como a decepção perde a graça, deixa de fazer sentido. Dói menos, com o tempo não altera mais a pulsação, desmancha no ar.&lt;br /&gt;A seleção brasileira, com os melhores e mais bem pagos jogadores do mundo, não jogou. Mas a febre da insustentável leveza da vontade de ser feliz pesou nas nossas veias por quatro jogos.&lt;br /&gt;Medíocre, um time que de poderoso só tinha o temido traje amarelo, levou a gente a acreditar no poder dos deuses. Ainda que soubéssemos que não há deus que dê jeito na negligência de um Ronaldo, fenômeno na capacidade de decepcionar brasileiros e surpreender, cada vez menos, espanhóis. Sabemos, ainda que dados a ilusões, que não há deus que deite coragem a covardes como Parreira, que recusa oportunidade à alegria do novo, representada por um menino Robinho, por intransigência ou teimosia burra.&lt;br /&gt;Pena que não há como acalentar nossos filhos e netos, as mais vulneráveis vítimas da decepção, lembrando de um João Saldanha, que enfrentou o general Médici, perdeu o cargo de técnico por não escalar Dario e entregou a Zagalo o melhor time de futebol daquele e de muitos subseqüentes anos. Zagalo, que em 1970 já era velho e, adequado àqueles tempos, arrogante, claro, convocou Dario para o sorriso do ditador que comemorou o Tri sobre 90 milhões em ação entre o circo e a opressão. Dario não saiu do banco. Zagalo nunca deu crédito a Saldanha. O Brasil comemorou e depois anoiteceu.&lt;br /&gt;Não vou entrar em detalhes nostálgicos porque morro de medo de memórias.&lt;br /&gt;O importante é que as decepções deixam de assustar. Não que a gente conte com elas. Mas quando vêm em direção a peitos um pouco mais maduros, a vontade de chorar é menor.&lt;br /&gt;Já a alegria não, é uma surpresa de infantilidade vitalícia. Se o Brasil conquistasse o hexa, todos sairíamos às ruas com a sensação de criança que acabou de abrir um presente de Natal. E nunca mais esqueceríamos.&lt;br /&gt;Não deu pra todo mundo, mas alguns privilegiados vão ter motivos eternos para comemorar: jovens que extraíram dessa Copa uma paixão. Casais que se conheceram em algum bar, durante um dos jogos e que vão viver um amor, quem sabe uma história, ter filhos e um dia dizer a eles que a decepção é um sentimento efêmero, uma dor passageira que pode até marcar. Mas nunca como o sorriso de um primeiro olhar que sai da alma, se transforma em brilho e se instala para sempre no coração. Sensação só comparada à libertação de um sonoro, ardente e indefectível grito de gol.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-115187771242232987?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/115187771242232987'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/115187771242232987'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2006/07/copa-do-mundo-fonte-de-decepes.html' title='Copa do Mundo: fonte de decepções?'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-114545436765380582</id><published>2006-04-19T10:45:00.000-03:00</published><updated>2006-04-19T11:46:27.290-03:00</updated><title type='text'>Desventuras por terras de Palocci</title><content type='html'>Deixei este espaço para as farras de fim de ano na Bahia, visita ao terreiro, reconciliação com os orixás. Depois Rio, Búzios e é Carnaval. Desci Harmonia e subi Purpurina atrás de tradicionais bandinhas, rodeado de intelectuais decadentes e dezenas de vem-ni-mim-que-eu-sou-facinha. Estava de volta à Vila Madalena.&lt;br /&gt;Passados blocos, corsos e temporadas de trabalho em Manaus, desembarco na que seria minha última festa antes de reincorporar este escriba. Eram as bodas de ouro dos tios da minha mulher. Três dias de festas em Ribeirão Preto. O primeiro, em plena sexta-feira da paixão.&lt;br /&gt;Chegamos de São Paulo direto para a casa dos velhinhos onde tive a primeira surpresa. Na rua uma pequena multidão se aglomerava. Muitos com copos de cerveja, alguns com um prato de macarrão. Parentes e amigos recém-chegados de uma viagem de quatro horas de ônibus. Passageiros eufóricos e seguros da hospitalidade do casal idoso. O marido, perto dos 80 anos, só fazia chorar. Disseram que de emoção. Como não acreditei, ofereci minha solidariedade: se recebesse mais de 40 hóspedes em minha casa também estaria no mais copioso pranto.&lt;br /&gt;Eu, minha mulher e as crianças poupamos o casal e nos hospedamos num hotel. Lá pelas dez da noite do dia seguinte demos início a maior aventura destes dias festivos. Encontrar o local da cerimônia principal. Para encurtar conversa, nos demos por perdidos em terras de Palocci, numa estrada deserta, escura e rodeada de mato por todos os lados. As crianças no banco de trás com olhos esbugalhados não arriscavam um único som. Minha mulher apreensiva segurava um ataque, não sei se de nervos ou de riso. Eu já me via assaltado e com o meu sigilo bancário quebrado. Quem conhece os labirintos e as rotatórias da cidade do ex-ministro, entende melhor as trapalhadas do governo.&lt;br /&gt;Ainda não sei se por obra do acaso ou dos orixás, caímos suavemente na Anhanguera, onde os celulares funcionavam. Guiados pelo telefone por um primo chegamos ao salão de festas, também em área deserta, escura e cercada de mato por todos os lados. Cerimônia adiantada, todos emocionados, não demorou a ter início a circulação de muita cerveja. Um problema prático: não se podia fumar dentro do salão e era proibido deixar o ambiente com o copo. Assim, se eu bebesse não poderia fumar, se fumasse não poderia beber. Do lado de fora, dados a vícios como eu se reuniam num protesto silencioso, a seco e bem humorado contra o cada vez mais estreito cerco aos fumantes. Nossa agonia tinha o consolo de uma lua riscada por rara nebulosa.&lt;br /&gt;Lá dentro, o jantar era servido numa mesa comprida, ao centro de um largo corredor em direção aos banheiros. Por volta de uma da manhã, quando todos os convidados se enfileiravam rente às travessas, me levanto e tento parecer discreto, passos medidos, no controle do meu lado maníaco obsessivo rumo ao WC. Com minha calça de linho branco, camisa verde claro quase nos joelhos, sandálias tipo franciscanas e meias brancas, só eu me convencia de que passava despercebido. Bem mais discreto do que eu, um camarão se deixou ficar no meio do caminho. Um passaporte para a agonia. Senti-me como no filme Matrix. Minhas pernas se projetaram para o alto, uma para cada lado, meus braços se abriram num enorme T, meu tronco girou em torno do próprio eixo e só o encontro dos meus 75 quilos com as tábuas muito bem enceradas do assoalho não foi em câmera lenta. Basta imaginar o som de um saco de batatas com o mesmo peso sendo atirado na madeira para ouvir a trilha sonora do meu tombo como um espetáculo particular. Por que isso só acontece naqueles raríssimos segundos de silêncio em que a música se cala e todos os assuntos se interrompem? Não faltaram os “ai, meu Deus, ele se machucou”, nem um engraçadinho que se antecipou com um “Já vai, cara? Ta cedo”.&lt;br /&gt;Não me restava muito, além dos tapinhas como quem sacode a poeira imaginária da própria bunda dolorida. Reconheci a queda, mas a volta por cima é mais difícil. Que ministros escorreguem em Brasília e caiam por essas terras, tudo bem. Mas custava poupar um simples e honesto cronista?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-114545436765380582?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/114545436765380582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/114545436765380582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2006/04/desventuras-por-terras-de-palocci.html' title='Desventuras por terras de Palocci'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-113319623598066031</id><published>2005-11-28T13:41:00.000-03:00</published><updated>2005-11-28T13:43:55.990-03:00</updated><title type='text'>Nós somos do Clube Atlético Mineiro</title><content type='html'>Para Otávio Rangel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora há pouco a fazer. Prestigiamos, marcamos presença nos estádios, plantamos bandeiras nas janelas, nos carros, nas arquibancadas da alma. Choramos com a multidão angustiada, embora entalada, cantando “lutar, lutar, lutar, pelos gramados do mundo pra vencer”. Saía do coração aos pulos, entre o sobressalto e a dor. Entre a efêmera alegria de um gol e a agonia da inevitável derrota. Nossos abraços eufóricos perdiam a validade ao final de 90 minutos. Nossos sorrisos de esperança se desmanchavam como uma aquarela molhada, como a maquiagem borrada da torcedora que de iluminada e linda se apagava num perplexo e incompreensível luto.&lt;br /&gt;Faltaram artistas no nosso circo. Faltou talento na nossa arte. Faltaram anjos no nosso céu.&lt;br /&gt;A insensatez dos dirigentes foi mais poderosa que a nossa devoção. A luz de interesses escusos brilhou mais que nossas velas a tantos altares, brilhou mais que nossas promessas à tantos santos, ofuscou nossos olhares arregalados e incrédulos em tantos agoniados apitos finais. Viramos nossos símbolos de cabeça pra baixo, vestimos camisas pelo avesso. Atiramos rádios e angústias, como traídos, em quem teimou em não reconhecer nossa paixão. Ouvimos em silêncio lamentos e escárnios. Ainda não lambemos a ferida. Precisamos de calma.&lt;br /&gt;Não que sejamos de calar, mas estamos roucos. Não que sejamos resignados, mas estamos frágeis. Não que sejamos covardes, mas como reabrir o peito à luta, quando endinheirados corruptos, qual generais de calças curtas, vestem na verdade indisfarçáveis armaduras da ambição pessoal e incendeiam em fogo amigo o nosso orgulho?&lt;br /&gt;Agora é acalentar o peito, onde ainda brilha uma estrela amarela sobre o escudo listrado. Agora é clamar de novo aos santos, aos orixás, pastores da aflição, invocar a inquieta e eterna febre de Roberto Drummond para mantermos o que sobrou da chama acesa. Porque, ainda que na Série B, os furacões da astúcia, da falta de ética e da má fé não podem derrubar nossas camisas surradas, manchadas de luta e pranto, mas de sempre reluzente preto e branco a tremular no varal de cada atleticano coração.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-113319623598066031?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113319623598066031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113319623598066031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/11/ns-somos-do-clube-atltico-mineiro.html' title='Nós somos do Clube Atlético Mineiro'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-113288016437686960</id><published>2005-11-24T21:54:00.000-03:00</published><updated>2005-11-24T21:56:04.386-03:00</updated><title type='text'>A lei seca e o voto dos chatos</title><content type='html'>Não tem jeito, a hora chega. Garçons entram em cena, levantando mesas, cadeiras, atirando água com detergente aos nossos pés, produzindo no ar o clássico cheiro de desinfetante barato com restos de cerveja. É a constatação do fechamento da casa. A hora, como diria Vinícius, “em que a tristeza aproveita pra entrar”. &lt;br /&gt;Acho que os casamentos também terminam assim. É como se do assoalho do coração subisse a indefectível fragrância de fim de caso. Como solidificado pela angústia, o perfume vira um nó na traquéia, obstruindo parte da garganta. Não deixa passar nada sólido, só líquido, de preferência alcoólico. É a constatação do fechamento dos ouvidos, dos botões do vestido e da abertura de um ensurdecedor silêncio que, por menos que dure, é o que mais se assemelha à eternidade.&lt;br /&gt;E eterna também é a associação da dor-de-cotovelo com o boteco. Dos menestréis da idade média aos poetas cibernéticos, todos um dia já deram uma de Reginaldo Rossi, esvaziando copos de desilusão e enchendo o saco do garçom.&lt;br /&gt;É nestes chatos indefesos que penso, quando ouço falar na lei seca que querem decretar em São Paulo. Onde os padecentes da dor-de-corno vão buscar tratamento? Onde estará o rapaz do banquinho e violão, a quem os abandonados com cara de Paulo César Pereio que perdeu a Sônia Braga no filme Eu Te Amo adoram gritar: “toca aquela do devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”.&lt;br /&gt;Concordo que estes exemplares da boemia estão desaparecendo, como há muito já sumiram a música, o filme, o Pereio e a Sônia Braga. Mas pelos poucos que restam, não acho justo. Se a razão para fechar as torneiras etílicas da cidade são os índices de violência, convém pensar nestas vítimas do abandono. Por mais inconvenientes que sejam, elas merecem uma chance de sobrevivência. A noite não será a mesma depois da extinção dessa espécie.&lt;br /&gt;De tão estropiados que ficam, estes desiludidos se tornam incapazes de qualquer agressão. Só violentam a paciência de quem os escuta. Por isso, se a lei seca é inevitável, proponho ao prefeito José Serra a criação de um salvo conduto, garantindo o mínimo de qualidade de vida noturna a essa gente. Seria permitido ao portador do documento, beber a qualquer hora do dia ou da noite, atormentar garçons e crooners, tomar quantas saideiras quiser e só ser colocado para fora do estabelecimento à luz da manhã, com palavras amáveis e pelas mãos de simpáticas e gostosas hosts.&lt;br /&gt;Do contrário, a aprovação do prefeito pela classe poderá ser comprometida. E em ano véspera de eleição vale lembrar: bêbados apaixonados também votam.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-113288016437686960?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113288016437686960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113288016437686960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/11/lei-seca-e-o-voto-dos-chatos.html' title='A lei seca e o voto dos chatos'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-113232280980922264</id><published>2005-11-18T11:02:00.000-03:00</published><updated>2005-11-18T11:06:49.820-03:00</updated><title type='text'>Coisas da Floresta</title><content type='html'>Gosto de Manaus onde no fim dos anos 90 cheguei a morar. Também foi no Amazonas que, por uma noite, tive o privilégio de ser hóspede, em Barreirinhas, de Thiago de Mello. Numa conversa que invadiu a madrugada, aprendi com o autor dos &lt;em&gt;Estatutos do Homem&lt;/em&gt; que a floresta tem a sua própria ordem natural, diferente da que rege as coisas dos mortais. Isso explica determinados fatos só acontecerem naqueles lados.&lt;br /&gt;Semana passada voltei à capital amazonense. Dessa vez, me hospedei num hotel cujos fundos davam para o Teatro Amazonas que, desde o ciclo da borracha, vem sendo palco de históricas apresentações e atrações de interesse mundial. Agora, a imponente casa abrigava a versão 2005 do Amazonas Film Festival, um tributo internacional à sétima arte, com pouquíssima repercussão aqui pelo sul.&lt;br /&gt;Ao lado daquele ícone cultural da região norte há, resistente como uma espécie amazônica, o bar do Armando, um botequim onde as mesas dividem a calçada com sedutoras prostitutas. Ali eu costumava tomar litros de cerveja, trocando filosofias baratas de fim de século. Seria bom matar saudades.&lt;br /&gt;Esqueci o cansaço de três horas e meia de viagem e desci, já tarde da noite. Quando adentro as paredes de desconfortável amarelo, com as únicas intenções de rever o Armando e tomar uma cerveja, dou de cara com uma figura que eu sabia conhecer, mas estava certo de que não era dali. Cabelos brancos, um pouco desalinhados, algumas rugas, olhos miúdos e visivelmente incomodado pelo calor, tomava sozinho uma bebida transparente e com muito gelo. Poderia ser um turista ou um cientista do hemisfério norte, como tantos que desembarcam na Amazônia, em busca dos mistérios da biodiversidade. Só que aquele rosto me era muito familiar. Fingi indiferença e fui falar com Armando que depois de um abraço festivo não se conteve: “Viu quem está aí? Dizem que é do cinema e famoso. Um tal de seu Roman”.&lt;br /&gt;Gelei com a queda da ficha. Momentos depois concluí como natural a presença dele ali. Mas no instante só lembrei do meu anfitrião de Barreirinhas, que me alertou para fatos que eu só presenciaria em Manaus. “Coisas da floresta...”, me diria o poeta. Distraindo a minha aversão à tietagem, me aproximei do senhor pedindo licença e estendendo-lhe a mão: “Nice meet you, Mr. Polanski”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-113232280980922264?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113232280980922264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113232280980922264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/11/coisas-da-floresta.html' title='Coisas da Floresta'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-113137683387417213</id><published>2005-11-07T12:14:00.000-03:00</published><updated>2005-11-07T12:20:33.886-03:00</updated><title type='text'>Ai de ti, Mulher-Gorila</title><content type='html'>Que me perdoem os muito modernos, mas a decadência é fundamental. Sou viciado no que fica ultrapassado sem perder de todo o glamour. Tanto que quando vou ao Rio, faço questão de me hospedar em Copacabana. Existe símbolo de decadência mais elegante do que o imponente Copacabana Palace? &lt;br /&gt;Pensava que os charmosos passos do romantismo ultrapassavam em muito as fronteiras do bairro carioca. Acabei por descobrir que descer a ladeira com legitimidade e sem escorregar do salto é obra para perua internacional. Como Copacabana.&lt;br /&gt;Semana passada fui a um Circo. Não um Grand Circo, com aquele cheiro característico, mistura de coco de elefante cansado com hálito de leão desdentado e urina de acrobatas entediados. Estes também dão verdadeiros shows de declínio nas curvas da modernidade.&lt;br /&gt;O circo da vez tinha propriedades estranhas. A começar pela localização: rua Augusta, próxima à Consolação. Depois, sem animais. Descobri que circo moderno é assim, ecologicamente correto. A próxima surpresa foi o preço, 20 reais os adultos e 10 as crianças, o que naturalmente afastou a molecada genuína e grande parte da gostosa ansiedade preliminar.&lt;br /&gt;Mas nem tudo estava perdido. A atração principal era um quadro que sempre tive vontade de assistir: Monga, a Mulher Gorila.&lt;br /&gt;Disputada por circos mambembes dos anos 60, esta mórbida vedete povoou de terror os sonhos de muitas crianças da minha época. Confesso que no meu caso não passou de horror imaginário, porque nunca tive coragem de presenciar a tal metamorfose. Ouvia dizer que era jogo de luzes, truques primários. Mas, na dúvida, preferia manter-me seguro e distante de tamanha aberração.&lt;br /&gt;Excitado por estar próximo à tardia satisfação da minha curiosidade, entrei e sentei na arquibancada de madeira que, para mais uma decepção, era coberta por uma longa almofada, proteção contra as fendas imortalizadas na piada do “senta que o leão é manso”.&lt;br /&gt;Começa um espetáculo morno. As crianças, todas rosadinhas, com cara de quem come bifinho todo dia e habituadas a sofisticados jogos de computadores, não escondiam a intolerância ante os malabarismos ingênuos e trapézios tão baixos que redes de proteção tornaria a apresentação mais derrisória que as de David Copperfield depois do Mister M.&lt;br /&gt;Quando a febre da expectativa já apresentava sinais de arrefecimento, anunciaram o tão esperado fenômeno. Monga, musa de antigos pesadelos, cúmplice da minha covardia, depois de décadas, estava prestes a me redimir. Um certo desconforto quase me pôs de pé a correr. Premonição de desilusão anunciada. Controlei. Afinal, era a última chance.&lt;br /&gt;Rufam-se os tambores e meu coração dispara. Abrem-se as cortinas e fecham-se meus olhos, mais por adiamento do instante do que por medo. Quando abro, foco a mais patética das personagens. Até vestido colorido e peruca de sisal ela trazia. A Mulher-Gorila do século 21 não passa de um número cômico dos mais rudimentares. Um palhaço ensaiado para ridicularizar minha intenção, banalizar minha inútil tentativa de recuperar um passado. Quase me convence de que o palhaço não era exatamente ele.&lt;br /&gt;Monga, a Mulher-Gorila que assustou, intrigou e habitou a fantasia da minha geração mudou.Tomou a direção do pedagogicamente correto, rezando mais nas cartilhas de Piaget do que nas de Zé do Caixão. Não me dei à paciência de avaliar a qualidade. Deixei o espetáculo antes do final, me sentindo ludibriado e com vontade de pegar a ponte aérea. Meu medo agora era outro. Não do sobrenatural, nem de ser o palhaço daquele sábado, daquele circo. Mas tive pavor de continuar a perder, principalmente tempo. Se a Mulher-Gorila já não existe nem entre o charme e a elegância das decadências, o que poderá acontecer quando eu voltar a Copacabana?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-113137683387417213?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113137683387417213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113137683387417213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/11/ai-de-ti-mulher-gorila.html' title='Ai de ti, Mulher-Gorila'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-113026398003744402</id><published>2005-10-25T14:56:00.000-03:00</published><updated>2005-10-25T15:45:12.413-03:00</updated><title type='text'>Do rotundo Não ao vôo rejuvenescido</title><content type='html'>Há cinco ou seis anos, recebi da Saldiva, uma agência de propaganda, um cartão de Natal que, ao contrário dos muitos que recebo todo ano, me chamou a atenção a ponto de não esquecer. O texto dizia que a águia é a única ave que chega a viver 70 anos. Só que para isso ela precisa tomar uma difícil decisão quando chega mais ou menos à metade da sua expectativa de vida. Com esta idade, as unhas estão compridas e flexíveis, não conseguem segurar suas presas. As asas estão envelhecidas e pesadas por causa da espessura das penas. Seu bico está demasiadamente curvo, impedindo de se alimentar. Neste momento a águia tem que decidir: morrer ou se submeter a um doloroso processo de renovação. A que não se entrega se recolhe a um ninho no alto de uma montanha, próximo a um paredão e, solitária, inicia um ritual que vai durar 150 dias. Começa batendo o bico na pedra até que ele caia. Aí, o pássaro é obrigado a esperar que o novo bico apareça para arrancar, em autofagia, as unhas e as penas obsoletas. E como se não bastasse, o rito de passagem ainda exige paciência para a espera do nascimento e desenvolvimento de novas unhas e penas. Cinco meses de sofrimento recompensado por mais 30 anos de vôo, de caça e de vida.&lt;br /&gt;Se há veracidade biológica ou não passa de uma parábola eu não sei. Certo é que a coragem da ave me despertou a dedicação de uma boa dosagem de respeito.&lt;br /&gt;Respeito que no último domingo, no referendo das armas, o brasileiro demonstrou exigir. Há cinco meses, parecíamos nos recolher ao alto da montanha, mortos de vergonha de nossas unhas e asas. Nos recolhemos de fato, mas não adiamos a batida do bico na pedra. Cada manchete de jornal era uma unha arrancada. Cada porrada no congresso era uma pena nova que nascia. Cada pronunciamento hipócrita dos governantes, a raiva como analgésico para a dor generalizada.&lt;br /&gt;Ainda não voltamos a voar. O rito não está concluído e há dores por sofrer. Mas, ainda que em solo, a demonstração de civilidade, de seriedade, de rejeição ao secular “jeitinho” - velado nas intenções do governo - está definitivamente estampada numa madura e silenciosa inquietude.&lt;br /&gt;Ao Estado cabe o desconforto da perplexidade. Ao cidadão o resgate da autoconfiança. Vale a pena esperar pelo vôo rejuvenescido, imponente e sempre nobre dessa ave a que chamamos, hoje com mais orgulho, de Brasil.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-113026398003744402?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113026398003744402'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/113026398003744402'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/10/do-rotundo-no-ao-vo-rejuvenescido_25.html' title='Do rotundo Não ao vôo rejuvenescido'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-112975336213520928</id><published>2005-10-19T17:21:00.000-03:00</published><updated>2005-10-19T17:22:42.143-03:00</updated><title type='text'>Dedicatórias</title><content type='html'>Não me lembro com quem aprendi que dedicatória não se escreve em livros de autoria alheia. Sei que depois de aprender, nunca mais escrevi. Que ousadia é essa que permite a nós, simples leitores, escrever na página de rosto do livro dos outros? De fato, dedicatórias só deveriam ser permitidas ao próprio autor.&lt;br /&gt;Porém, contradição à parte, pouco se compara à alegria de ver uma manifestação de carinho, amizade ou amor nas primeiras páginas de um livro. E se tal homenagem vem de quem escreveu a obra e imprimiu seu nome à frente do texto, a felicidade é multiplicada pela tiragem da edição. O problema é que alguns escritores homenageiam namoradas, paixões que não sabiam passageiras, e quando passam, não querem o registro nem como referência de inspiração. Normalmente por mágoa ou desilusão. Aí, a sensação de “tarde demais” ganha dimensões vitalícias. A obra leva para a eternidade um nome que nem uma centena de novos amores consegue apagar.&lt;br /&gt;Conheço o exemplo de um escritor já falecido, com quem tive a oportunidade de dividir a mesa de um bar em Belo Horizonte, na década de 80. Autor de uma obra extensa, com mais de 40 títulos publicados e traduzidos em grande parte do mundo, aquele ícone da literatura brasileira estava acompanhado da esposa, com quem era casado há tempo suficiente para afirmar que não confiava em produto local: para onde viajava levava seu uísque e sua mulher. Madura, mas dona de um corpo de fazer inveja a muita top model da época, aquele metro e noventa de mulher, com um par de olhos azuis capaz de ofuscar o céu da capital mineira, chegou, na juventude, a ser imortalizada numa música de Tom Jobim. Imagine em quantas páginas ela não foi citada e o quanto da obra desse escritor não foi ofertado a ela.&lt;br /&gt;Pouco depois deste encontro me mudei para a Europa e nunca mais estive com o casal. De volta ao Brasil, quase dez anos mais tarde, li com indisfarçável surpresa uma discreta nota na imprensa sobre a separação dos dois. Da perplexidade ao susto: e agora, o que fazer com as citações, com as dedicatórias, com a desconfiança quanto aos produtos locais? Foi quando aprendi que se declarar amor é difícil, desfazer a declaração é tarefa para uma junta de alquimistas.&lt;br /&gt;Brilhante e determinado como foi em toda a sua carreira, o coerente autor não vacilou. Solitário e de posse apenas de uma caneta revisou todas as suas crônicas, contos, novelas e romances, eliminando cada uma das citações à ex-companheira. Só assim se sentiu à vontade para entregar ao editor a última versão das suas obras completas. Quanto às edições anteriores, não havia o que fazer. Deixou ao tempo e às traças o encargo de amarelar, corroer e fazer desaparecer definitivamente todas as letras da sua decepção.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-112975336213520928?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112975336213520928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112975336213520928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/10/dedicatrias.html' title='Dedicatórias'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-112904879229189754</id><published>2005-10-11T13:37:00.000-03:00</published><updated>2006-03-07T15:53:23.963-03:00</updated><title type='text'>A transposição do ciúme</title><content type='html'>&lt;em&gt;Dorme Ponte, Pernambuco, Rio, Bahia&lt;br /&gt;Só vigia o ponto negro, meu ciúme.&lt;br /&gt;Caetano Veloso&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem já pegou Gaiola em Pirapora e desceu o São Francisco sabe quanta poesia espera nas margens para desaguar em versos. Quanta gente entre Minas e Pernambuco pesca, brinca, trabalha, reza, ama, come e bebe no Velho Chico? Quem por esse leito navega, entende melhor o sentido do amor, aprende a gostar de maneira exagerada, aprende a se apaixonar. Quem nunca sentiu sequer um respingo no rosto das gotas deste rio talvez não compreenda a extensão disso. Para estes eu recomendo uma viagem a Pirapora, Juazeiro, Barra ou Petrolina. Em compensação, quem já se banhou naquelas águas tão cantadas, descritas e pintadas por artistas de todo o mundo, vai entender e me dar razão. É como se o santo que dá nome ao rio deitasse sobre nós uma mágica benção. Depois o sentimento é de perfeição. Algo assim como unhas já nascendo cortadas, domingo sem musiquinha do fantástico, feriado sem engarrafamento na serra, CD sem invólucro de plástico. Utopias nas quais só acreditamos quando em exercício daquele delicioso estado de idiotice, permitido apenas aos apaixonados. E acredite, o São Francisco nos encharca desta sensação. Mas o efeito da abençoada umidade também tem prazo de validade. Aí é como se o amor repousasse oscilante, como um diamante, entre a areia e o cascalho, no fundo, adormecido sob o manto caudaloso da memória.&lt;br /&gt;Por isso, compreendo a resistência dos barranqueiros à transposição do São Francisco. Compreendo, embora já interrompida, a greve de fome do Bispo de Barra. Compreendo o medo de quem cultua a vida àquelas margens. Porque do amor, é inevitável, nasce o ciúme. Como admitir a divisão do velho e amado Chico com a gente carente da caatinga do Norte? Quem garante que o rio não vá se encantar, no fim da sua vida, por outras terras e deixar secar lindas e antigas histórias? Porque o velho amante está fraco, está doente. Era preciso recuperá-lo, dar a ele novo fôlego, ampliar a longevidade, antes de pensar em dividir suas águas.&lt;br /&gt;Todo ciúme deve ser tolerado. Seja dos enamorados de um rio ou daqueles que não têm sossego, que controlam seus parceiros pelo celular, pelo msn, invadem e-mail, cheiram cuecas e calcinhas, viram mesas de bares, partem pra porrada em público por conta de troca de olhares que na maioria das vezes não ocorreu. Tudo porque, como diria Caetano, “o ciúme lançou sua flecha preta”.&lt;br /&gt;Ciumento confesso, mas adestrado pelas rédeas da psicanálise, não me lembro de chegar a extremos. E se cheguei, peço desculpas aos coadjuvantes e espectadores de doloroso espetáculo. Porque o ciúme não deve ser manifestado. Deve no máximo ser detectado em silêncio. Sofrido num desenho íntimo. Tão tênue como o nascimento do amor no leito de um rio condenado. Tão discreto como uma marca d’água, para sempre no coração.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-112904879229189754?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112904879229189754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112904879229189754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/10/transposio-do-cime.html' title='A transposição do ciúme'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-112854045235991496</id><published>2005-10-05T16:25:00.000-03:00</published><updated>2005-10-05T17:18:47.870-03:00</updated><title type='text'>Quando a luz dos olhos teus resolve me matar.</title><content type='html'>Poucas formas de expressão têm tanto poder quanto o olhar. Seduz, adverte, duvida, acredita, diz que ama, diz que odeia, diz que é infantil, que é maduro, delicado, astuto e até fuzila. Provoca dores incomensuráveis quando definitivamente se apaga. Eufóricas alegrias quando pela primeira vez se acende. E não há nada mais silencioso, completamente desprovido de sons, e ao mesmo tempo tão escandaloso, carregado de verbos, quanto o olhar. Contudo, não há notícia de óbito provocado pela versátil janela da alma. Imagino o furo de reportagem: “Engenheiro assaltado e morto por olhar fulminante”. A insólita manchete faria a festa da redação e, claro, do departamento financeiro de qualquer jornal. Mas, há aqueles olhares com pouca luz por tristeza, excesso de trabalho ou até mesmo por farra na noite anterior. Para estes há um recurso, o colírio. O que poucos sabem é que o eficaz remédio para os olhos pode ser fatal ao coração. No início da semana o jornal mexicano El Universal noticiou a prisão de seis prostitutas na Cidade do México acusadas pela morte de cinco dos seus clientes. A arma do crime? Um inofensivo colírio. As meninas descobriram que as gotas utilizadas por oftalmologistas para dilatar as pupilas dos pacientes provocam incontrolável sonolência quando ingeridas com álcool. Assim, aproveitando o deslumbramento dos incautos, pingavam o medicamento na bebida, esperavam a transformação do seduzido em Cinderela, e roubavam até as cuecas. Porém, elas não contavam que a tal mistura pudesse levar à morte pessoas com problemas cardíacos. E o curioso é como tudo foi descoberto. Um sobrevivente ao golpe contou à polícia que vigiou seu uísque o tempo todo. Mas não percebeu que a garota, na impossibilidade de acesso ao copo, pingou o medicamento nas pontas dos seios. Quando acordou se sentia dopado, de ressaca e muitos pesos e dólares mais pobre.&lt;br /&gt;De fato vivemos tempos complicados. Se não bastassem a Aids, a Hepatite C e outras DSTs, agora temos o colírio assassino. Imaginem se este desavisado não se sentisse atraído por tão sedutores atributos femininos. Onde a mulher pingaria as gotinhas? Deixo as possibilidades por conta da preferência de cada um. E quanto às prostitutas mexicanas, melhor continuar utilizando as janelas da alma. Só comer com os olhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-112854045235991496?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112854045235991496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112854045235991496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/10/quando-luz-dos-olhos-teus-resolve-me.html' title='Quando a luz dos olhos teus resolve me matar.'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-112777102238827768</id><published>2005-09-27T18:41:00.000-03:00</published><updated>2005-10-18T15:09:37.206-03:00</updated><title type='text'>A saudade e o preço do mico.</title><content type='html'>Tem saudade que chega, assola como uma tempestade e se afoga nas turbulentas águas do cotidiano. Normalmente é despertada por uma imagem, uma frase ouvida de um anônimo ou por um perfume. Poucos sentidos me remetem tanto à saudade quanto o olfato. Posso até não saber o que determinada fragrância me faz despertar na memória, mas quando bate, acende meus arquivos com a força de um canhão de luz sem, contudo, definir o alvo focado. Aí vem aquela dorzinha no peito que dura até o sopro da brisa vinda do rio Pinheiros, me fazendo substituir inusitada nostalgia pela lembrança sempre viva do trânsito na Marginal.&lt;br /&gt;E na velocidade da Marginal andam os dias, nos deixando ultrapassados, com cara de ontem. Lembro de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, publicada no Jornal do Brasil no fim dos anos setenta, onde ele revelava a sua perplexidade ao ver uma jovem sinalizando à distância, com o dedo indicador teclando o espaço vazio, um pedido de telefonema. O cronista se constatou ainda &lt;em&gt;gauche&lt;/em&gt; na vida, ao lembrar que aquele sinal, caso partisse de sua mão, seria desenhando círculos imaginários ao redor do ouvido, numa clara referência aos telefones de manivela. E olha que a jovem se referia apenas ao telefone fixo de teclas. Celular na década de 70, só em ficção científica.&lt;br /&gt; No último domingo me senti na pele do poeta. E o que é pior, com a idade que ele teria hoje. Fui ao Pacaembu com Lais - filha de 12 anos de minha mulher - e mais três amiguinhas da escola. Claro que elas não queriam me fazer companhia na torcida de uma partida de futebol. Era o show de Avril Lavigne, uma canadense pouco mais velha que elas, dona de uma voz arrebatadora e de um enorme talento musical demonstrado no piano, no violão e na bateria. Éramos 40 mil, entre adolescentes e pais. Eu, na implacável condição de tio, sem o charme e o assédio do disputado personagem da novela das oito, tive todas as imagens, frases e aromas possíveis para me sentir um velho. Só o que me consolou foi um senhor com cara de avô de duas saltitantes meninas. Semblante calmo, cabelos mais brancos que os meus, rugas pacientes na face e um tampão de algodão em cada ouvido.&lt;br /&gt;Em determinado momento do espetáculo, de pé num degrau abaixo ao das garotas e tomado pelo clima de romantismo da música, me lembrei da apresentação de James Taylor no primeiro Rock in Rio. Impulsionado pela irresponsabilidade da saudade, lancei mão do meu isqueiro e comecei a dançar lentamente ostentando a chama na mão erguida. Lais, envolta no adolescente e rubro manto da vergonha, me tocou o ombro: “pára de pagar mico, Orlando...” Quando me viro, quem quase morre de vergonha sou eu. Os milhares de adolescentes também erguiam e balançavam seus braços. Só que no lugar de isqueiros suas mãos ostentavam luminosos celulares, salpicando uma constelação de rara beleza nas arquibancadas do estádio. Restava agora esperar o fim do show e aplaudir. Mais os adolescentes que a cantora. Afinal, eles sabem melhor que ninguém: a Marginal não pára.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-112777102238827768?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112777102238827768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112777102238827768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/09/saudade-e-o-preo-do-mico.html' title='A saudade e o preço do mico.'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-112725706012761748</id><published>2005-09-20T23:49:00.000-03:00</published><updated>2005-09-20T20:56:06.326-03:00</updated><title type='text'>Qualitativas, Quantitativas e Enganos.</title><content type='html'>Há poucos dias uma jovem conhecida me informou sobre uma pesquisa que ela viu não sabe onde, encomendada não sabe por quem, com o objetivo de medir não sabe o quê nas vendas de telefones celulares. E me afirmou com toda a segurança que, baseado nessa pesquisa, as crianças de oito anos já estão preferindo um telefone celular a qualquer brinquedo, “juro, eu li na pesquisa” bradava minha convicta amiga diante do meu inevitável ar de incredulidade. O diagnóstico não seria surpreendente, considerando que a intenção de participar do mundo globalizado está chegando cada vez mais cedo às nossas crianças. Mas não consigo imaginar, numa pesquisa qualitativa um garoto de oito anos correndo para um celular, deixando de lado um colorido e sedutor helicóptero de controle remoto planando sozinho no ar. As pessoas ainda desconhecem, e muito, os mecanismos e os efeitos deste importante instrumento de avaliação e medição de interesses. &lt;br /&gt;Ferramenta indispensável no marketing político e comercial, as pesquisas são bússolas responsáveis pela manutenção das naves políticas e empresariais nas rotas do sucesso. Mas sua eficácia depende fundamentalmente dos critérios. E se funcionam com políticos e empresas, naturalmente é de grande utilidade em qualquer setor.&lt;br /&gt;Começo a imaginar se tivesse conduzido a minha vida através de pesquisas qualitativas. Conheci aquela que seria a minha mulher. Chamo o Ibope, monto um questionário, aprovo um grupo misto de 14 pessoas com a minha faixa etária, nove homens e cinco mulheres. Exponho a pretendente e as minhas expectativas. Avalio virtudes, defeitos e meço a adequação da futura esposa ao meu estilo de vida, aos meus recursos econômicos e às minhas aspirações quanto à vida conjugal. Uma semana depois viria o relatório do instituto: os atributos físicos da candidata agradaram todo o grupo, com elevado índice de aprovação. O que por um lado é extremamente positivo, e por outro negativo, posto que a ameaça de assédios sexuais poderia ser fator complicador na relação, caso o contratante da pesquisa seja ciumento. Quanto às qualidades domésticas, o lado feminino do grupo apresentou algum índice de rejeição. Já o masculino se portou com indiferença à questão, imaginando que os interesses do contratante sejam muito mais nos atributos de cama do que nos de mesa. A capacidade financeira da candidata teve aprovação de 100% do grupo, quando o nome do pretenso sogro foi revelado. Por fim, perguntado se casaria com uma mulher como aquela, todo o grupo, homens e mulheres, respondeu positivamente. Ok, a candidata à mulher da minha vida foi aprovada pela qualitativa e o casamento foi recomendado pelo Ibope.&lt;br /&gt;Meses depois me caso, volto da lua de mel ainda lânguido, feliz e observo algumas pessoas me olhando de forma estranha. A princípio ignoro, mas conforme os olhares escusos e desconfiados vão se multiplicando e tornando constantes, começo a me preocupar. O que deu errado? É quando um amigo mais próximo me chama num canto e pergunta “que negócio é esse que tá todo mundo comentando que você se casou com uma sapatão?” Sem entender nada, continuaria padecendo da síndrome de patinho feio, até descobrir a origem de tão infundado e comprometedor boato. Uma secretária do Ibope, que por acaso me conhecia, leu apenas um lembrete que o moderador da pesquisa anotou no canto do questionário, “mulheres também se casariam com a candidata a esposa”. Pronto, foi o suficiente pra ela passar a mão no telefone e ligar pra outra fofoqueira de plantão aqui da agência: “você acredita que a mulher do Orlando é sapatão? Juro, eu li na pesquisa”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-112725706012761748?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112725706012761748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112725706012761748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/09/qualitativas-quantitativas-e-enganos.html' title='Qualitativas, Quantitativas e Enganos.'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-112965865048411477</id><published>2005-09-07T15:02:00.000-03:00</published><updated>2005-10-18T15:04:10.486-03:00</updated><title type='text'>A arte de coabitar à distância</title><content type='html'>Dividir é uma difícil arte. Não sei se mais difícil que a propriedade de multiplicar, embora esta todos parecem ter e exercer com certa facilidade. Desde que dos céus veio a ordem para crescermos e multiplicarmos, temos obedecido com ilimitada devoção. Principalmente no que diz respeito à segunda parte do mandamento. Nem a ameaça da Aids, que já entra na terceira década, conseguiu nos inibir no delicioso cumprimento da ordem celestial. O problema é a conseqüência primária dessa gostosa multiplicação: a inevitável divisão. Pessoalmente, não tenho como negar uma certa queda por casamentos. Tive quatro esposas em 43 anos de vida. Filhos tive dois, Maíra e Otávio, hoje adultos, lindos e quase tão deliciosos quanto o momento das suas concepções. Devo confessar que com eles pouco dividi. Ao me separar das respectivas mães quando ainda eram muito pequenos, me separei também da maior parte dos encargos. Em contrapartida me privei de momentos mágicos que permeiam o crescimento e o desenvolvimento humano. Só a paternidade presente nos dá a senha de acesso a esta sedutora evolução. &lt;br /&gt;Há algum tempo enamorado e ensaiando o que seria a quinta tentativa de continuar cumprindo a minha parte na obediência da ordem sacra, tenho feito exercícios diferentes para aprimorar meu talento na arte de coabitar, visando o sucesso pleno da relação. Inclusive ludibriando as conseqüências do start da multiplicação com eficazes contraceptivos. Afinal, o importante é que o amor, como diria Vinícius parodiando seu próprio verso, “seja infinito enquanto duro”. E, naturalmente, este duro se aplica a algo muito mais prazeroso do que a situação financeira da maior parte dos pais de família brasileiros. &lt;br /&gt;Como dever de casa deste aprendizado, moro num apartamento na Vila Madalena a exatamente cem metros do prédio onde Sandra, minha mulher, companheira e absolutamente insubstituível na melhor parte deste milagre da multiplicação, vive com seus dois filhos, Lais e Júlio. Neste espaço, entre dois números da rua Harmonia, estamos os quatro, reaprendendo a dividir. Lais, 12 anos, me inseriu entre seus pouquíssimos escolhidos por quem divide seus apertados e recém adolescidos abraços, seus olhares reluzentes de cumplicidade e seu disputado espaço no painel de fotos onde hoje ostenta algumas imagens minhas na Europa. Júlio, cinco, incluiu meus ombros entre os poucos por onde divide o pouso terno do seu rosto sonolento quando é noite e suas pernas saltitantes em posição de cavalinho quando é dia. Sandra não dividiu. Dedicou inteira sua capacidade de fazer alguém se sentir amado. &lt;br /&gt;Da minha parte, me sinto em dívida. Além do meu estoque de chocolates que passei a reabastecer diariamente, divido com as crianças minhas noites. Troquei os bares do bairro e horas de inútil escrita por olhares atentos a desenhos animados, comédias românticas em DVD, brincadeiras com lego e limitadas orientações em trabalhos escolares. E com Sandra divido as páginas de uma nova história que pretendemos não terminar. A tentativa de decifrar essa misteriosa sensação a que insistimos em chamar saudades do futuro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-112965865048411477?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112965865048411477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112965865048411477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/09/arte-de-coabitar-distncia_07.html' title='A arte de coabitar à distância'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16650915.post-112665437576106977</id><published>2005-09-06T00:35:00.000-03:00</published><updated>2005-10-18T15:01:56.816-03:00</updated><title type='text'>43 ANOS</title><content type='html'>Para Sandra Freitas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos meses tenho sorrido pouco. Tenho tido poucos amigos. Freguentado pouco os bares. Abraçado poucas mulheres, acariciado muita poesia. Nos últimos meses tenho lido poucos livros, navegado poucas noites, bebido pouco, muito pouco uísque. Tenho afogado pouco os dias difíceis. Também é verdade, já bebi piores. Tenho me afastado de vícios, pouco alcalóide na pouca aflição. Tenho caminhado pouco, tenho corrido muito nas avenidas da solidão. Tenho pensado em ir ao dentista, ao analista, adio muito as farmácias. Tenho ganhado algum dinheiro. Tenho gastado muito mais. Tenho lido poucos jornais, tenho preferido jardins e indecifráveis desenhos infantis. Mas tenho olhado o trânsito, os olhares desesperados – são tantos – dos motoristas. Tenho prestado atenção nas crianças, na paciência das calçadas, na indiferença das babás, na aflição dos passantes, na ternura dos namorados, na doçura dos enganados, no sal da pele dos traídos. E entre janelas escusas, saias ventiladas, árvores pedantes, andorinhas em algazarra, espero sua chegada. Enquanto na varanda minha alma, agora diferente, morre de rir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16650915-112665437576106977?l=orlandodesouza.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112665437576106977'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16650915/posts/default/112665437576106977'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://orlandodesouza.blogspot.com/2005/09/43-anos.html' title='43 ANOS'/><author><name>Orlando de souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15639222600624994313</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
